terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ainda estou aqui

 Prezado leitor

Talvez você chegue neste link e ache que eu não estou mais na ativa profissionalmente. Mas é absolutamente o contrário disso. A vida profissional acabou me absorvendo, e faz praticamente 10 anos que não atualizo este blog. Não o apaguei pois sei que tem informações atemporais e interessantes sobre medicina chinesa e saúde que você pode conferir.  Eu não gostaria de desperdiçar esse conteúdo.

Tentei continuar no Facebook, uma ferramenta mais ágil, mas também sem sucesso. Estou há tempo prometendo um novo site, ou quem sabe um espaço no Instagram para voltar a me comunicar de forma mais frequente com vocês. No entanto eu não posso ser incongruente com aquilo que acredito, e antes de ficar horas absorvida em produzir conteúdo para a internet eu cuido de meus pacientes, e cuido de minha família, e cuido de mim: da minha saúde. 

Inúmeros profissionais de saúde não cumprem o que pregam, e eu não pretendo ser uma delas. A saúde é o bem mais importante de que dispomos. Então fica aqui a minha intenção de no futuro voltar a me comunicar de forma mais frequente com vocês, mas ainda sem data definida para este novo projeto. Eu os avisarei.

Enquanto isso, continuo no consultório, trabalhando e cuidando de cada um que me procura pessoalmente ou online. Desejo que você também possa priorizar cada vez mais a sua saúde, em detrimento das telas, das obrigações sociais e das infinitas e infindáveis correrias do dia-a-dia. 


Um abraço, Analyce

 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Novo canal de comunicação

Continue acompanhando as notícias do Consultório de Acupuntura e Psicologia também pelo Facebook:


O espaço aqui do blog continuará sendo utilizado para temas mais extensos e postagens maiores. 
Clique em "curtir" e fique informado!


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Funções básicas dos Zang Fu: Pulmão (Fei)

A energia do Pulmão (Fei) está em relação com a do Coração (Xin) através do Triplo Aquecedor Superior (Sanjiao Superior) e do Ciclo de Controle (Ke). Portanto, terá uma participação direta nos problemas da circulação sanguínea e cárdio-respiratórios. É responsável por dar calor ao Sangue (Xue), e sua energia (Tong) se relaciona com o Coração e promove os batimentos cardíacos.
Ao ser considerado o “Mestre das energias”, mantém uma relação direta com todos os órgãos mas principalmente com o Movimento Terra (Baço-pâncreas - Pi) de quem se nutre e com o Movimento Água (Rim - Shen) ao qual alimenta, através do Ciclo de Geração (Sheng).
A energia do Pulmão comanda a pele e os pelos, motivo pelo qual se suspeitará de alterações do seu meridiano principal em doenças dermatológicas e relacionadas aos cabelos. Também está relacionada com as fossas nasais, a garganta e o tom de voz, portanto a utilizaremos em faringites, disfonias, amigdalites, anosmias, rinites, etc. 
Por ter como acoplado o Intestino Grosso (Da Chang), suas relações com essa víscera lhe fazem intervir em processos intestinais, como diarréias ou constipações.
Como elemento mãe do Rim sua insuficiência se refletirá em alterações da separação do líquido orgânico, como no aparecimento de edemas e dificuldades na micção. Também, por ser o “mestre das energias”, sua insuficiência refletirá um vazio do Rim-Yang por insuficiente formação de Qi orgânico. 
Sua situação externa (formando o plano Tai Yin) lhe permite comunicar-se com o exterior. É a ponte de manifestação das plenitudes Yin em direção ao Yang Ming, e portanto o primeiro órgão a manifestar alterações produzidas pelas Energias Perversas, se abrindo ao exterior.
É sempre importante lembrar que os órgãos (Zang) e vísceras (Fu) em Medicina Chinesa devem ser compreendido como sistemas energéticos amplos que desempenham várias tarefas. O nome idêntico ao dos órgãos ocidentais pode dar a noção errada de correspondência entre os conceitos da medicina alopática ocidental com a oriental, mas isso não acontece de fato. Por isso procuraremos incluir também os nomes em chinês de todos os termos que implicam num conceito energético mais amplo, como lembrança de que estamos falando de um conjunto de atributos e funções (e não exatamente do órgão anatômico) e que a Medicina Chinesa é uma racionalidade médica totalmente distinta da ocidental.  


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015


O Consultório de Acupuntura e Psicologia retoma a partir de hoje suas atividades em horário de verão. 
Consultas podem ser agendadas pelo telefone. 

Feliz 2015, e que neste ano possamos seguir o conselho dos grandes mestres.

"Seja como um cisne em um lago de lótus, que desliza serenamente sobre a água sem agitá-la e navega entre as flores de lótus sem alterar os arranjos delicados." 
(Dilgo Khyentse)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Reequilibrando

O objetivo dos métodos de tratamento da Medicina Clássica Chinesa é reequilibrar os aspectos do Yin e do Yang do organismo nos quais a proporção e o movimento harmonioso tornou-se desordenado. 
A agitação deve ser acalmada. A insuficiência deve ser tonificada. Substâncias que se acumularam indevidamente devem ser drenadas. Se há insuficiente Qi (energia), este deve ser  reposto. Os movimentos devem ser colocados nas direções corretas. O Qi estagnado deve ser movido. Frio deve ser aquecido e calor excessivo, resfriado. Seja o que for que esteja fora de balanço, deve ser reequilibrado. Os aspectos complementares do Yin e do Yang devem estar harmoniosos. 
A ideia básica por trás da acupuntura é a de que a inserção de finas agulhas nos pontos ao longo dos Canais pode reorganizar desarmonias. As agulhas podem reduzir o que é excessivo, tonificar o que está deficiente, aquecer o frio, dispersar o calor, circular o estagnado, mover o congelado, estabilizar o que está agitado, incrementar o que está decaído e conter o que está aumentado. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Acolhendo a vida


Durante toda a minha infância, meus pais mantiveram um quebra-cabeças gigante em cima de uma determinada mesa da sala de estar. Meu pai, que tinha dado início a esse hábito, sempre escondia a tampa da caixa, A ideia era encaixar as pecas sem saber de antemão qual seria a figura final. Diferentes membros da família e amigos que vinham nos visitar trabalhavam no quebra-cabeça, às vezes apenas por alguns minutos, até que, depois de várias semanas, centenas de peças acabavam encontrando seu lugar.
Ao longo dos anos, montamos dúzias desses quebra-cabeças. No final acabei adquirindo grande habilidade nisso, e me agradava ser a primeira a descobrir onde se encaixava uma peca ou como dois grupos de peças se juntavam. Eu adorava, em especial, o momento em que surgia a primeira insinuação de uma figura e eu conseguia perceber o que tinha estado ali, escondido, o tempo todo.
A mesa do quebra-cabeça foi presente de aniversário de meu pai para minha mãe. Recordo-me dele montando-a e, todo feliz, despejando sobre ele as peças daquele primeiro quebra-cabeça. Eu tinha uns três ou quatro anos e não entendi a alegria de minha mãe. Eles não me haviam explicado aquele jogo, sem dúvida, achando que eu era nova demais para participar. Mas, mesmo assim, eu queria tomar parte.
Sozinha na sala, certa manhã, subi na cadeira e espalhei as centenas de pecas soltas que estavam sobre a mesa. As pecas eram bem pequenas; algumas de cores vivas, outras escuras e sombrias. As escuras pareciam aranhas ou besouros, eram feias e um pouco assustadoras. Elas me inquietavam. Juntando algumas delas, desci da cadeira e as escondi debaixo de uma almofada no sofá. Por várias semanas, sempre que eu me pegava sozinha na sala, subia na cadeira, pegava mais algumas peças escuras e as acrescentava a meu esconderijo na almofada.
Assim, aquele primeiro quebra-cabeça precisou de muito tempo para ser montado pela família. Frustrada, minha mãe contou as peças e percebeu que estavam faltando mais de cem. Perguntou-me se eu as vira. Contei a ela que tinha dado sumiço nas pecas de que não gostava, e ela as resgatou e completou o quebra-cabeças. Recordo-me de vê-la fazer isso. Quando peça escura após peça escura foi sendo posta no lugar certo e a figura emergiu, fiquei pasma. Eu não sabia que haveria uma figura. Era muito bonita, uma cena tranqüila em uma praia deserta. Sem as peças que eu escondera, o jogo não tinha sentido.
Talvez ganhar exija que amemos o jogo incondicionalmente. A vida fornece todas as peças. Quando eu aceitava certas partes da vida, negando e menosprezando todo o resto, eu só podia ver minha vida uma peça por vez - a alegria de um êxito ou um momento de celebração, ou a feiúra e a dor de uma perda ou um fracasso que eu estava fazendo tudo para esquecer. Porém, assim como as peças escuras do quebra-cabeça, aqueles eventos mais tristes, por mais dolorosos que fossem, revelaram-se parte de algo maior. Os breves vislumbres que tive de algo oculto, aparentemente, requereram a aceitação como um presente de toda e qualquer peça. 
Estamos sempre encaixando as peças sem conhecer a figura de antemão. Estive com muitas pessoas em períodos de grande perda e pesar quando um significado insuspeitado começou a emergir dos fragmentos de suas vidas. Com o tempo, esse significado revelou-se durável e digno de confiança, ate mesmo transformador. É um tipo de força que nunca nasce naqueles que negam sua dor.
Ao longo dos anos, tenho visto o poder de assumir uma relação incondicional com a vida. Surpreendo-me por haver encontrado uma especial de disposição de enfrentar seja lá o que for que a vida possa oferecer, em vez de desejar modificar ou eliminar o inevitável. Muitos de meus pacientes também parecem ter encontrado seu caminho para essa postura em relação à vida.
Quando as pessoas começam a adotar essa atitude, parecem tornar-se mais vivas, intensamente presentes. Suas perdas e sofrimentos não as levam a rejeitar a vida, não as lançam em uma situação de ressentimento, sentimento de injustiça ou amargura. Como observou um amigo com HIV/Aids: "Abri mão de minhas preferências e estou vivendo com uma intensa consciência do milagre do momento". Ou, nas palavras de outro paciente: "Quando você esta andando sobre gelo fino, é melhor dançar".
Com essas pessoas aprendi uma nova definição da palavra "alegria". Pensei que alegria fosse sinônimo de felicidade, mas ela agora me parece ser muito menos vulnerável do que esta última. A alegria parece ser uma parte do desejo incondicional de viver, de não vacilar porque a vida pode não atender às nossas preferências e expectativas. A alegria parece ser uma função da disposição para aceitar o todo e estar pronto para enfrentar o que quer que esteja à nossa espera. Ela possui uma espécie de invencibilidade que o apego a algum resultado específico nos negará. Em vez do guerreiro que combate visando a algum resultado específico e por isso mesmo é assombrado pelo espectro do fracasso e decepção, seria como o apaixonado inebriado diante da oportunidade de amar, apesar da possibilidade da perda, o jogador para quem o jogo tornou-se mais importante do que ganhar ou perder.
A disposição para ganhar ou perder nos conduz para fora de uma relação de oposição com a vida e em direção a um poderoso tipo de receptividade. Dessa posição, podemos entrar em um grande comprometimento com a vida. Não apenas a vida agradável ou confortável, ou nossa idéia de vida, mas toda a vida. A alegria parece estar mais estreitamente ligada a ter vida do que a ter felicidade.
A força que observo desenvolver-se em muitos de meus pacientes e em mim mesma depois de todos estes anos quase poderia ser chamada um forma de curiosidade. O que um de meus colegas denomina intrepidez. Em certo nível, obviamente, receio uma conseqüência tanto quanto qualquer pessoa. Porém, cada vez mais, consigo entrar e sair desse sentimento e vivenciar um lugar além da preocupação com o resultado, uma vida além da vida e da morte. É um lugar de liberdade, ate mesmo de antegozo. As decisões tomadas a partir dessa postura são uma afirmação de vida, e não guiadas pelo medo. É como uma graça.
Na medida em que somos capazes de abrir mão da preferência pessoal, nós nos libertamos do pensamento baseado em perder ou ganhar e do medo que dele se alimenta. É essa liberdade que ajuda um time a ir para as finais de um campeonato. A posição antagônica pode não ser a posição mais forte na vida. A liberdade pode ser uma posição mais forte do que o controle. Ela é, sem dúvida, uma posição mais forte e muito mais sábia que o medo.
Existe aqui um paradoxo fundamental. Quanto menos somos apegados à vida, mais vivos podemos nos tornar. Quanto menos preferências temos em relação à vida, mais intensamente nos a podemos vivenciar e dela participar. Isso não quer dizer que eu deixo de preferir torradas com geleia a rosquinhas de chocolate. Quer dizer que não sou tão louca por torrada com geleia a ponto de não querer levantar da cama se não puder comê-las ou que a ausência de torrada com geleia vá arruinar todo o meu dia. Acolher a vida pode ter mais relação com experimentar do que com torrada e geleia ou rosquinha de chocolate. Mais a relação com a capacidade de tirar prazer das novidades do dia e do que ele pode trazer. Mais a relação com aventura do que com satisfação das próprias vontades.

(Retirado de: Rachel Naomi Remen - Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogão.)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Esclarecimento: a acupuntura é multiprofissional


O Conselho Federal de Psicologia recebeu na quarta-feira, 18 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a Resolução que buscou regulamentar a prática da acupuntura para os profissionais psicólogos. 

A decisão reconhece que NÃO EXISTE NO BRASIL UMA LEGISLAÇÃO QUE AUTORIZE A PRÁTICA POR DETERMINADOS PROFISSIONAIS OU QUE PREVEJA ESPECIFICAMENTE QUEM PODE ATUAR NA ÁREA.  Ou seja, ainda não existe exclusividade na prática da acupuntura por nenhuma classe profissional ou lei que regulamente a sua prática.

O entendimento do STF é de que A ACUPUNTURA DEPENDE DA EDIÇÃO DE LEI ESPECÍFICA para o seu exercício pelas diversas categorias profissionais da saúde. 

No Senado já tramitam Projetos de Lei que visam regulamentar o exercício profissional da acupuntura, garantindo que esses incluam a prática para o profissional psicólogo. Assim, por enquanto, está suspensa a validade da resolução mas NÃO É IMPEDIDA  A PRÁTICA DA ACUPUNTURA POR NENHUM PROFISSIONAL DA SAÚDE NO PAÍS. 

Vamos seguir na luta por uma legislação específica que garanta a acupuntura democrática e multiprofissional.  Contamos com o apoio de todos.

Fonte: http://site.cfp.org.br/acupuntura-2/

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ai, acho que inflamou!

A inflamação é uma resposta normal do organismo a patógenos ou irritantes. Inflamação geralmente é consequência de infecção, mas nós não devemos confundir as duas coisas. Quando somos invadidos por Vento (os vírus da Medicina Ocidental) nós desenvolvemos febre e uma inflamação aguda, isto é, nós temos uma infecção e uma subsequente inflamação.

Inflamação é parte de uma complexa resposta biológica de tecidos vasculares aos estímulos nocivos, tais como patógenos, células danificadas, ou agentes irritantes. Os sinais clássicos de inflamação aguda são dor, calor, vermelhidão, inchaço e perda de função. A inflamação é uma tentativa de proteção por parte do organismo para remover os estímulos nocivos e iniciar o processo de cura. Inflamação não é sinônimo de infecção, mesmo nos casos em que a inflamação é causada por infecção. Embora a infecção seja causada por microorganismos, a inflamação é uma das respostas do organismo ao patógeno.

Porém, inflamações podem se tornar crônicas e desempenhar um papel muito negativo em várias doenças. Nestes casos, a inflamação não está desempenhando um papel positivo, como no caso de inflamações agudas em resposta a algum evento nocivo. A inflamação crônica pode criar um terreno convidativo para o progressivo desenvolvimento de doenças. Já se sabe que as inflamações crônicas estão envolvidas no aparecimento de doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, obesidade, artrite, doenças neurológicas, doenças pulmonares e auto-imunes. Nós já sabemos que muitas dessas doenças são causadas pela desregulação das vias inflamatórias, levando a um estado de inflamação crônica.    

Geralmente os fatores causadores de inflamação crônica são estresse, tóxicos (inclusive má alimentação), tabaco, álcool, agentes infecciosos e radiação. Eu somaria a isso as vacinações (que contam como agentes infecciosos). Essa lista nos mostra como os fatores modernos de adoecimento estão distantes daqueles que os antigos praticantes da medicina chinesa enfrentavam.

Muitas plantas já demonstraram ter ingredientes ativos que combatem ou inibem o estado de inflamação crônica do organismo, como a cúrcuma ou o cardamomo por exemplo. Mas é fácil ver como a melhora no estilo de  vida e a prevenção podem desempenhar um papel crucial neste processo. Boa alimentação, exercícios físicos, práticas alterativas de manutenção da saúde, busca do equilíbrio emocional garantem que tenhamos harmonia e um organismo livre de processos inflamatórios que durem mais do que o necessário à auto-regulação.

Fonte: http://maciociaonline.blogspot.com.br/

sábado, 1 de junho de 2013

Visões errôneas

"Muitos ocidentais tem uma noção estranha do que seja a medicina chinesa. Alguns a vêem como um "abracadabra" - o produto de um pensamento mágico ou primitivo. Se um paciente é curado através da fitoterapia ou acupuntura, eles vêem somente duas explicações possíveis: ou a cura foi devido ao efeito placebo, ou foi um acidente, o feliz resultado de um "jogo de dardos" ao acaso no qual o praticante não teve muito entendimento. Eles partem do princípio de que a ciência e a medicina ocidental são as únicas verdades - todo o resto é superstição.
Outros ocidentais tem uma opinião mais favorável mas igualmente equivocada sobre a medicina chinesa. Profundamente, às vezes com razão, cansados dos muitos produtos da ciência e cultura ocidental, eles assumem que o sistema chinês, por ser mais antigo, mais espiritual, mais holístico, é também mais verdadeiro que o da medicina ocidental. Essa atitude ameaça transformar a medicina chinesa de um campo de conhecimento racional em um sistema de fé religiosa. Ambas atitudes mistificam o assunto, uma por menosprezo, a outra por colocar em um pedestal. Ambas são barreiras ao entendimento.
De fato, a medicina chinesa é um sistema coerente e independente de pensamento e prática que foi desenvolvido ao longo de dois milênios. Baseado em textos antigos, é o resultado de um contínuo processo de pensamento crítico, bem como extensa observação clínica e testagem. Representa uma constante formulação e reformulação de material por clínicos e teóricos respeitados. É também, entretanto, enraizado na filosofia, lógica, sensibilidade e hábitos de uma civilização totalmente estranha à nossa. Que desenvolveu, não obstante, sua própria percepção dos processos de saúde e doença."

Tradução livre de: KAPTCHUK, Ted. The web that has no weaver: understanding chinese medicine. pp 1-2. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ninguém pode saber tudo, e nem precisa


É espantosa essa discussão em torno da acupuntura e dos profissionais (médicos ou de outras classes) que defendem a exclusividade na sua prática, como se fossem os únicos capazes de fazê-la com responsabilidade. A acupuntura enquanto técnica faz parte de uma tradição muito antiga, que tem sua própria linguagem e seus significados, sua patologia, anatomia e tratamento radicalmente diferentes do pensamento médico ocidental.  É uma outra racionalidade médica, muito anterior à medicina ocidental e independente desta, e que exige por sua vez muitos anos de estudo e de prática específicos.
O argumento mais comum é de que o acupunturista não-médico deixaria passar despercebidas várias coisas que poderiam ser vistas por um médico ocidental. Mas é óbvio que isso é verdadeiro, assim como o médico ocidental deixa de ver coisas importantes que poderiam ser vistas pelos dentistas, o psicólogo deixa de ver várias coisas que poderiam ser vistas pelo fisioterapeutas, o dentista deixa de ver coisas que poderiam ser identificadas pelos nutricionistas, e assim por diante. E, por sua vez, os profissionais de formação e mentalidade ocidental deixam passar informações que poderiam ser de importância para um acupunturista tradicional, com uma formação e mentalidade radicalmente diferente, na sua tarefa de minimizar o sofrimento humano. Aí reside a especificidade e a limitação de cada campo do conhecimento.
Mas não há problema nisso, porque para minimizar estas falhas existem as equipes multidisciplinares, para isso existem trocas, para isso existem encaminhamentos, para isso existe respeito interdisciplinar. O psicólogo acupunturista encaminha para o médico quando percebe que há tempo seu cliente não faz exames ou um check-up; o fisioterapeuta acupunturista encaminha para o odontólogo quando percebe que o paciente com dor na articulação mandibular há tempo não visita o dentista; o farmacêutico acupunturista encaminha para o psicólogo quando percebe que o dano físico pode ter raízes emocionais; o médico ocidental encaminha para o acupunturista tradicional quando percebe que há tempo suas técnicas e medicamentos não mais beneficiam, e assim por diante.
Ninguém pode saber tudo sobre tudo.  E aquele que pouco sabe de tudo, nada sabe de nada. Por isso temos que ser humildes em nosso saber e em nossa prática, conhecer as limitações de nosso campo de conhecimento e principalmente trocar, interagir, estar aberto para poder dialogar com colegas que desejam todos um objetivo comum, proporcionar saúde e bem estar a quem os procura. E isso vale para todas as profissões. Neste momento não há lugar para brigas ou picuinhas, ninguém é mais do que ninguém. Se eu não sei, o colega pode saber, então encaminho. Se não tenho certeza, checo. E nenhum  profissional pode ser completo diante da imensidão das possibilidades de cuidados em saúde, pois nenhuma ciência dá conta da diversidade e da complexidade do ser humano e dos processos da vida. Assim acredito que ninguém pode ter a pretensão de saber tudo, e nem precisa. Sejamos responsáveis e honestos em nosso saber, façamos tudo o que pudermos, e deixemos aos colegas o que cada um sabe fazer de melhor, respeitando seu direito e sua prática, e reconhecendo a sua importância.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Promovendo Saúde e Relaxamento Durante as Quatro Estações

VERÃO
Gao Lian, Séc. XVI

Os três meses do verão são governados pela energia do fogo, e por isso se encarregam do processo de crescimento e maturação. O qi do coração é abundante de energia de fogo, e está associado ao sabor amargo. De acordo com as relações do ciclo de controle entre as cinco fases da energia, fogo agride metal; a energia de metal governa os pulmões, e o sabor associado ao pulmão é o picante. Durante o verão, por isso, deve-se diminuir os alimentos amargos e aumentar os alimentos picantes para se nutrir os pulmões. Ao mesmo tempo, deve-se usar o som “haaaa” para mobilizar o qi estagnante do coração, e “shhhhh” para harmonizar seu fluxo.
(...) O coração é exuberante durante os meses de verão, mas os rins encontram-se em seu estado mais fraco. Apesar do calor, no entanto, seria impróprio preencher o estômago com petiscos congelados, bebidas frias ou cereais frios. (...) Sob tais circunstâncias, não se alimente de berinjela, vegetais crus ou outros alimentos excessivamente yin, visto que em tal circunstância já existe uma grande quantidade de yin qi presente no abdômen, e a ingestão de alimentos coagulantes como esses podem promover a formação de massas abdominais. Idosos, em particular, e pessoas com tendência a formação de fleuma-calor que se devem na verdade à sua constituição fria, devem se conformar com tais princípios e evitar tais alimentos.
Pela mesma razão, não busque o alívio do calor do verão em locais com corrente de vento e muito cheios. Embora possa encontrar um resfriamento temporário sob um abrigo, são em corredores, em jardins externos ou próximo de janelas quebradas que os ventos nocivos podem mais facilmente invadir o corpo. Busque a tranqüilidade de uma sala ampla e vazia, ou a energia yin pura de uma fonte de água para alcançar um estado natural de resfriamento.
Mais importante ainda, regule sua respiração e acalme seu coração. Tenha em mente que segurar cristais de gelo próximos de seu coração e estômago farão com que o fogo ascenda, ao invés de diminuí-lo. Não presuma que coisas quentes aquecem e por isso irão alimentar um calor já abundante. Mais do que isso, crie o hábito de tomar regularmente tônicos que aquecem em forma de pílulas ou pó durante os meses do verão, de forma que se garanta um fluxo suave do qi. Beba líquidos mornos e alimente-se de alimentos quentes; nunca se alimente até o limite, mas coma porções menores em intervalos mais curtos. Beba chá de canela, cozinhe com cardamomo, utilize água fervida ao invés de água fresca, e evite pratos gordurosos.
Também, evite dormir sob a luz de estrelas e da lua, pois caso acampe em lugares abertos, estará propenso à invasão de vento. Embora você possa sentir uma certa euforia inicial. O vento irá certamente fazer o seu caminho através de seus poros. (...) Alguém, por exemplo, que ingere alimentos frios e então descansa seu corpo suado em um local com corrente de vento irá facilmente contrair a síndrome de bloqueio do vento (...) Visto que a cabeça é o ponto de encontro de todos os canais yang, um cuidado especial deve ser tomado para protegê-la da influência nociva do vento. Todas as pequenas rachaduras na parede de seu quarto devem ser remendadas, para prevenir agressões à cabeça. Além disso, penteie seus cabelos 100~200 vezes por dia durante os meses de verão, tomando cuidado para não ferir o couro cabeludo e escolher um local livre de correntes. Este é um método natural para se eliminar o vento e dar mais brilho aos olhos.
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Introduzido e traduzido por Heiner Fruehauf
Versão em Português: Paulo Henrique Pereira Gonçalves
Supervisão e Revisão : Ephraim Ferreira Medeiros
Site original: www.medicinachinesaclassica




quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Promovendo Saúde e Relaxamento Durante as Quatro Estações

 PRIMAVERA (Gao Lian, Séc. XVI) 

Introduzido e traduzido por Heiner Fruehauf
Versão em Português: Paulo Henrique Pereira Gonçalves
Supervisão e Revisão : Ephraim Ferreira Medeiros
www.medicinachinesaclassica.org

Os três meses da primavera são o período de renovação: o velho e gasto se dissipa, céu e terra retornam à vida, e tudo floresce. Descanse de noite e levante-se cedo, caminhe livremente pelo jardim, relaxe e desfrute da agradável sensação de um passeio matinal; esta é a forma como deve despertar o seu espírito na primavera. Favorecer toda a vida e não matar, ser generoso e agradável, dar livremente e não punir. Esta é a maneira de honrar o qi da primavera e nutrir a vida durante esta época. Ir contra essas características do fluxo sazonal terá efeitos prejudiciais sobre o fígado.
O sabor de fígado/Madeira é ácido. Madeira pode sobrepor a terra, a qual na dinâmica dos elementos governa o baço, o qual por sua vez é influenciado pelos sabores adocicados. Na primavera, portanto, deve-se comer menos alimentos ácidos e se alimentar de alimentos mais ou menos doces para nutrir o qi do baço.
Os raios quentes do novo sol da primavera incita para que tudo brote, inclusive certas doenças que estiveram escondidas sob a superfície do corpo. O tempo é um tanto quanto irregular durante o primeiro e Segundo mês lunar (Fevereiro a Abril), frio em um momento e quente em seguida, e visto que muitos dos mais velhos sofrem de algum tipo de enfermidade crônica, o qi ascendente da primavera pode levar essas pessoas a se sentirem cansadas e fracas. Enfermidades crônicas se manifestam facilmente sob essas condições. Também, durante os meses do inverno as pessoas tendem a rodear os fogões a lenha e se alimentar de comida processada, e tais influências negativas gradualmente se acumulam no corpo até que finalmente se manifestam na primavera.
Elas farão o corpo sentir-se quente e a cabeça tonta, o diafragma ficará obstruído e a boca ficará pegajosa, os braços perderão força e as pernas e parte inferior das costas se tornarão fracas. Todas essas são doenças que se acumularam durante o inverno. Quando o corpo apresenta sinais de mudança e sente-se que uma doença pode estar chegando, seria errado usar simplesmente ervas que mobilizam para corrigir aparente estagnação, porque os remédios desta natureza podem realmente prejudicar as redes de órgãos neste momento, e outras doenças podem surgir. A forma adequada seria a utilização de remédios que extinguem o vento e harmonizam o qi, resfriar o diafragma e transformar a doença latente. Se alguém opta por empregar medidas dietéticas deve-se selecionar os alimentos que são energeticamente nem muito quentes nem muito frios, possivelmente de natureza um pouco mais fria, e que impedem a estagnação, beneficiando a transformação suave de comida e bebida. Desta forma, todos os processos do corpo fluirão naturalmente. Se não houver sinais de doença, não há necessidade de tomar qualquer medicamento.
Primavera é a estação de harmonia. Este é o tempo para caminhar pelos jardins e florestas, para se sentar calmamente nos quiosques pela paisagem e aproveitar as tranqüilas imagens da natureza. Abra seu coração, livre-se de toda a energia estagnada e, assim, incentivar o qi de nascimento, vida e renovação de fluxo. Neste momento, seria contra a dinâmica da natureza se sentar ao redor de coisas interiores e crescer estagnado e deprimido. Evite beber muito álcool, e mostrar uma certa contenção com aqueles alimentos comumente feitos de farinha que têm uma tendência para prejudicar o baço e o estômago. Eles são realmente difíceis de digerir.
Especialmente as pessoas de idade não devem ceder à tentação transitória do prazer oral e comer em excesso quando de estômago vazio, caso contrário, sua saúde irá certamente sofrer. Além disso, visto que o tempo muda de frio para quente e de quente a frio, seria um erro deixarem suas roupas de inverno de lado. Os idosos geralmente têm qi fraco, ossos frágeis, e um corpo frágil que é altamente suscetível ao vento frio. Visto que sua superfície é facilmente invadida, eles devem sempre ter um conjunto extra de roupas prontas que podem ser postos de lado quando o sol sai. Remova camada por camada, não se livre de tudo de uma vez!


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ventosas (Cupping)


As ventosas são uma técnica integrante das terapias externas dentro da Medicina Chinesa, e são usadas para tratar patologias através da criação de uma pressão negativa sobre pontos ou áreas da pele. Essa pressão é feita com a colocação de copos ou recipientes especialmente feitos para tal fim, o que cria na região uma congestão sanguínea. Originalmente feitas de bambu, chifres de animais, porcelana ou metal, atualmente as ventosas mais usadas são feitas de vidro, acrílico ou borracha. 
Terapia do bem
O efeito terapêutico acontece por fazerem um estímulo térmico e mecânico na superfície da pele. Agem regulando a circulação e a troca de substâncias entre os tecidos, modulando a dilatação e contração dos capilares, favorecendo a circulação sanguínea e linfática local, equilibrando o Yin-Yang, suplementando a energia defensiva, removendo energias patogênicas e drenando os meridianos. Desta forma, elas têm uma ação tanto nas doenças externas quanto nas internas.
São indicadas para mais de 100 patologias, especialmente para dor, machucados dos tecidos moles, inflamações agudas ou crônicas, obstruções por invasão de frio, umidade ou vento e disfunções dos órgãos e vísceras. As condições podem ser aliviadas rapidamente mesmo com uma só aplicação. Quando adequadamente efetuada é uma terapia segura, sem efeitos tóxicos ou colaterais, que pode ser usada tanto para tratamento como na preservação da saúde. Existem apenas algumas contraindicações que devem ser observadas cuidadosamente pelo terapeuta, por isso a necessidade de um profissional habilitado.

As mais desejadas
As ventosas podem ser fixadas em determinados pontos, ou movimentadas em massagens com o uso de óleos deslizantes e terapêuticos. Quando fixas sobre a pele por um determinado tempo podem produzir manchas avermelhadas ou roxas que desaparecem ao longo de alguns dias, mas quando manipuladas e movimentadas não deixam marcas duradouras. Também podem ser combinadas com outras técnicas da Medicina Chinesa como a acupuntura.
Geralmente a aplicação de ventosas não é dolorosa, podendo ser bastante relaxante, principalmente as ventosas de vidro que se tornam mornas pela necessidade de aquecê-las no fogo antes de posicioná-las sobre a pele. Devido à sua agradável sensação e seu poder de desenrolar as tensões, acabam tornando-se uma das partes mais desejadas pelos clientes durante uma sessão de tratamento.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

As Cinco Fases (Wu Xing)


Este artigo é baseado em uma tradução livre de: KAPTCHUK, Ted J. The web that has no weaver: understanding chinese medicine. USA: McGraw-Hill Books, 2000. pp 437-439.


A teoria das Cinco Fases é uma tentativa de classificar os fenômenos em termos de cinco processos quintessenciais, representados pelos emblemas Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. Seu lugar na medicina e em outras atividades intelectuais chinesas tem sido mal-compreendida desde quando os primeiros Ocidentais tentaram explicar a filosofia naturalista chinesa para o ocidente há cerca de 300 anos. E somente durante este século o mundo acadêmico fez alguns progressos na direção de uma melhor apreciação da teoria das Cinco Fases.

Cinco processos
As Cinco Fases não são de maneira alguma constituintes últimos da matéria. Essa concepção errônea tem sido por muito tempo incorporada na equivocada tradução desta teoria como “Cinco Elementos”, e isso por si só já exemplifica os problemas que surgem quando se olha para as coisas chinesas a partir de um referencial ocidental. O termo chinês que nós traduzimos como Cinco Fases é “wu xing”. Wu é o número cinco, e xing significa “caminhada” ou “movimento” e, talvez mais adequadamente,  implica um processo.  Wu xing, portanto, são cinco tipos de processos; por isso Cinco Fases, e não Cinco Elementos. Assim, a teoria das Fases é um sistema de correspondência e padrões que classifica eventos e coisas, especialmente no que diz respeito à sua dinâmica.
Mais especificamente, cada Fase é um emblema que indica uma categoria de funções e qualidades relacionadas. A Fase chamada Madeira é associada com as funções ativas existentes num período de crescimento. Fogo designa funções que atingiram seu máximo estado de atividade e estão prestes a começar seu declínio ou descanso. Metal representa funções já num estado de declínio. Água representa funções que alcançaram seu máximo estado de repouso e estão prestes a modificar a direção de sua atividade.  Finalmente, Terra implica balanço ou neutralidade; num certo sentido, Terra é um estado intermediário (“de carregamento”) entre as outras Fases. Na medida em que as Fases correlacionam fenômenos observáveis da vida humana com imagens derivadas do macrocosmo, elas tem uma função semelhante que as dos elementos utilizados em outros sistemas médicos.

Classificando percepções
Em termos mais concretos, as Cinco Fases podem ser utilizadas para descrever o ciclo anual em termos de crescimento e desenvolvimento biológico.  Madeira corresponde à primavera, Fogo ao verão, Metal ao outono, e Água ao inverno. E o que se diz a respeito da Terra? Terra representa a transição entre cada estação (e é comumente utilizada para representar o “qiū lăo hŭ”*). Essas correlações são conhecidas como Lei de Produção Mútua das Cinco Fases. Ela representa a maneira pela qual as Cinco Fases interagem e geram uma à outra num ciclo anual típico. Há trinta e seis possibilidades matemáticas nas quais as Cinco Fases podem ser combinadas, mas somente algumas delas são usadas atualmente na medicina e em outras disciplinas.
A aplicação das Cinco Fases ao desenvolvimento das estações do ano é apenas um exemplo de como o sistema era usado. Na época, essas cinco categorias genéricas foram usadas para classificar muitas outras percepções, desde cores, sons, odores e sabores a emoções, animais, dinastias, planetas e, em última análise, tudo o que existe no universo. Correlações também foram feitas entre as Fases e os vários Órgãos e regiões anatômicas, e daí veio então a conexão entre a teoria das Cinco Fases e a medicina.

* Na China este período chamado “qiū lăo hŭ” literalmente quer dizer “um tigre no outono”. Em chinês isso significa o ressurgimento do ameaçador calor típico de verão que persiste até bem depois de passado o início do Outono (o décimo terceiro ponto de divisão das estações , de acordo com o Calendário chinês, que normalmente cai entre os dias 7 e 8 de agosto). Este tempo quente pode persistir muito bem até Outubro ou Novembro nas regiões mais ao sul.  No sul do Brasil acontece um fenômeno semelhante chamado “veranico de maio”, um pequeno verão em maio, representando um curto espaço de tempo quente que ocorre no meio-outono (Nota da tradutora, segundo http://en.wikipedia.org/wiki/Indian_summer).


quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Viver nos domínios da natureza de Buda significa morrer a cada instante como um ser insignificante. Quando perdemos o equilíbrio morremos, mas ao mesmo tempo também nos desenvolvemos, crescemos. Tudo que vemos está mudando, perdendo o equilíbrio próprio. Tudo parece bonito porque está tudo desequilibrado, mas a base sempre está em perfeita harmonia."

(Shunryu Suzuki)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Técnicas Gerais de Estimulação e Dispersão dos Pontos de Acupuntura


Na prática de acupuntura existem muitos detalhes que passam despercebidos pelos olhos do paciente e também de muitos acupunturistas iniciantes que estão, em princípio, preocupados com informações mais gerais tais como a localização de pontos e colocação das agulhas. Uma dessas peculiaridades são as técnicas de estimulação e dispersão efetuadas nos pontos de acupuntura.
Existe uma variedade de técnicas diferentes quando se deseja incrementar a energia num canal, ponto, sistema ou região, e também quando se deseja mover, circular ou diminuir a energia. À medida que o acupunturista segue se aperfeiçoando, deve começar a estar atento a essas manipulações para incrementar o resultado de sua prática. Abaixo segue um resumo das mais conhecidas.

Vai-e-vem: após inseridas as agulhas, e sem retirar da pele, é feito um movimento de inserção-retirada (cuja extensão não deve ser mais do que 0.3-0.5 cun). Então a agulha é manipulada de uma camada mais superficial para uma mais profunda, e vice-versa, num movimento contínuo. Quando é dada ênfase no aprofundamento e se é gentil na retirada (sendo a inserção a técnica principal), implica uma estimulação. Quando se é gentil no aprofundamento e é dada ênfase na retirada (sendo a retirada a técnica principal) implica uma dispersão.
Rotação: o cabo da agulha é mantido entre o dedo indicador e o polegar, e girada. A diferença entre a estimulação e dispersão é dada pelo ângulo, velocidade e direção da rotação. De maneira geral, rotação para a esquerda (com o polegar para frente e o indicador para trás) implica uma estimulação. Rotação para direita (com o polegar para trás e o indicador para frente) implica uma dispersão.
Estimulação e dispersão por velocidade: uma inserção com velocidade lenta e uma retirada rápida da agulha implica estimulação. Uma inserção rápida e retirada lenta implica dispersão.
Técnicas segundo a direção: leva em consideração o fato de a agulha estar direcionada a favor ou contra o fluxo de energia no canal. Agulhas a favor da circulação implicam uma estimulação. Agulhas contra a circulação, uma dispersão.
Técnicas de acordo com a respiração: inserir e girar a agulha na inspiração do paciente e retirar na expiração promove dispersão. Inserir durante a expiração e retirar na inspiração promove estimulação.
Técnica nove-seis: de acordo com o I Ching (o Livro das Mutações) os números pares tem a natureza Yin, os números impares a natureza Yang. Este método é feito girando-se a agulha seis ou nove vezes nas três camadas de inserção conhecidas como Céu, Terra e Homem. Seis implica dispersão, nove implica estimulação.
Abertura e fechamento: imediatamente pressionar os pontos após a retirada da agulha promove estimulação, manter os pontos abertos implica dispersão.
Técnica harmonizadora: a agulha é manipulada suavemente e equilibradamente combinando-se vai-e-vem e rotação enquanto é inserida a uma determinada profundidade, e depois disso retirada. Utilizada para tratar problemas sem uma manifestação astênica ou estênica evidente já que não enfatiza nenhum aspecto da manipulação.

Obviamente existe a possibilidade de combinação de técnicas. Também é necessária uma avaliação da condição energética do paciente para a adaptação a cada situação que se apresenta na prática clínica. Nem todas as técnicas são indicadas para todas as pessoas. E também nem todas as técnicas são para todos os terapeutas.
A grande beleza da medicina chinesa e da acupuntura consiste na possibilidade de seguir a intuição, perceber o fluxo das circunstâncias que se apresentam a cada momento entre paciente e terapeuta, não se adaptar a protocolos pré-estabelecidos e saber usar com liberdade o conhecimento acumulado ao longo de muitos anos. Isso é praticar a acupuntura enquanto arte.
Para saber mais consulte: Diagrams of acupuncture manipulations. Autores e tradutores: Liu Yan e Li Zhaoguo Wang Jing. Shanghai Scientific & Technical Publishers.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mantendo os olhos abertos

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"The most beautiful thing we can experience is the mysterious. It is the source of all true art and all science. He to whom this emotion is a stranger, who can no longer pause to wonder and stand rapt in awe, is as good as death: his eyes are closed."
(Alfred Einstein)

(A mais bela coisa que podemos experimentar é o mistério. Essa é a fonte de toda arte e ciência verdadeira. Aquele para quem essa emoção é estranha, que não mais pode parar para perguntar-se e pegar-se absorto em reverência, está como que morto: seus olhos estão fechados.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Curiosidades históricas sobre a medicina chinesa

É difícil estudar cronologicamente a história da Medicina Chinesa. Em primeiro lugar devido à vasta dimensão do território chinês, e ao fato de que sua unificação política não foi permanente. A China antiga era formada por vários reinos, e mesmo depois da sua relativa unificação algumas dinastias se sobrepuseram controlando uma parte do território, o que complica a análise cronológica. Além disso, há uma diversidade de etnias, de dialetos, de costumes, e de climas segundo as regiões.
Se não bastasse este problema, temos que levar em consideração que o estudo da Medicina Chinesa abarca um espaço de tempo excepcionalmente longo. É considerada uma das medicinas mais antigas do mundo, de tal forma que determinadas teorias são tão antigas que se recorre a lendas para atribuir-lhes uma origem. E essas teorias ainda seguem sendo os conceitos de base para a compreensão desta disciplina.

Uma ciência revelada
O fato de que a investigação moderna possa, com resultados fidedignos, comprovar teorias ou temas complexos proferidos há mais de vinte séculos segue sendo hoje em dia causa de espanto para todos aqueles que tem avançado no conhecimento da Medicina Chinesa. A assombrosa mistura de complexidade e de coerência faz com que estudiosos cogitem hoje a hipótese de uma origem por “insight” ou por “inspiração”.
Um grande número de especialistas admite ser difícil compreender como puderam ser descobertos certos aspectos sutis da medicina chinesa sem que seus inventores tivessem tido acesso a estados alterados de percepção do mundo e do ser humano, estados estes que nos ultrapassam.
É evidente que nos encontramos aqui num terreno escorregadio que nos exige uma certa prudência, no entanto segue sendo evidente que a medicina chinesa é uma disciplina tradicional de fundamentos essencialmente espirituais.

Conhecimento sutil
Textos antigos do Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Huang Di Nei Jing, escrito entre o século V a.C. e VII d.C) já nos apresentam a Medicina Chinesa como uma ciência “revelada”, cujo saber veio a se degradar progressivamente ao longo dos anos. Isso se opõe claramente ao conceito de progresso permanente próprio das ciências experimentais.
É muito provável que homens inspirados, depois de haver alcançado uma realização pessoal acima do ordinário, tenham impulsionado a humanidade dentro dos diferentes ramos do conhecimento. Numerosas tradições estão impregnadas destas lendas.
Apesar disso, não deve-se deduzir que a Medicina Chinesa tenha aparecido espontaneamente com toda a sua perfeição em um determinado momento da história na mente de um praticante ou um ser realizado. É certo que ela foi construída progressivamente através dos séculos, enriquecendo-se com experiências empíricas e afinando-se continuamente no plano teórico.
Deste modo, a Medicina Chinesa não é somente produto de um saber científico. Seu êxito depende mais das qualidades pessoais e da sutileza dos práticos, cujo desenvolvimento pode por vezes ser até limitado pela alta tecnologia. É necessário desenvolver atenção, sensibilidade, intuição e visão.

Para saber mais, leia: MARIÉ, Eric. Compendio de Medicina China: fundamentos, teoria y práctica. Ed. EDAF.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A grande tonificação da energia essencial


Nas teorias tradicionais chinesas o homem é considerado um microcosmo inserido no macrocosmo, e de nenhuma forma é visto como separado, estando submetido às leis gerais de interdependência de tudo o que existe entre o Céu e a Terra.
Assim, ele é influenciado por diversos fatores: fatores climáticos, fatores sociais e de relacionamento, fatores constitucionais e dietéticos. Mas mais do que isso, e de forma insuspeitada, ele é influenciado pelos movimentos cósmicos do sol, da lua e das estrelas, pelos ritmos das estações do ano, por movimentos geológicos, etc.
Os antigos mestres chineses conheciam e previam estes movimentos e as possíveis interferências sobre o ser humano, e elaboravam diversos sistemas de estudo e adaptação do homem aos fatores macrocósmicos.

Fluir sem esforço
A adaptação do organismo às diferentes estações de um ano, com seu clima específico, foi algo bastante enfatizado pelos orientais. Segundo eles, cada estação possui uma energia predominante (frio, calor, vento, umidade ou secura) e um movimento próprio, e o homem deve adaptar seu comportamento e suas atividades com o objetivo de seguir as leis universais.
Ao observarmos os outros seres e o ambiente, percebemos essa adaptação: os ursos dormem no inverno, as flores só vem na primavera, e as frutas amadurecem no verão. O homem moderno negligencia a passagem do tempo, e por isso sofre. Ao não observar a demanda de cada período, adoece.
Contrariar a exigência de cada estação do ano levaria a um gasto inútil de energia, o que apenas serviria para exaurir as forças internas. Seria preferível, segundo os sábios, “conhecer os ritmos das marés”, para então poder fluir sem esforço e não ficar nadando contra a corrente. Só assim se terá sucesso. Para ajudar um pouco nessa adaptação uma técnica antiga que pode até hoje ser realizada é a Grande Tonificação.

A Grande Tonificação
A Grande Tonificação é uma técnica preventiva utilizada em acupuntura. Trata-se da seleção de um grupo específico de pontos que têm o objetivo de fortalecer o organismo internamente e protegê-lo externamente, um pouco antes da mudança de uma estação para outra. Essa técnica pretende reforçar o sistema denominado Biao-Li (exterior-interior), ou seja, potencializar os fatores de resistência que facilitam a tarefa cotidiana de adaptação do ser humano a seu meio em constante mutação.
Essa tonificação deverá ser feita, segundo os mestres, 18 dias antes da virada de uma estação para outra. Por exemplo, para efetuar a grande tonificação preventiva para a Primavera, deveremos realizar a acupuntura nos dezoito últimos dias do Inverno. Desta forma preparamos o terreno para as mudanças ambientais que estão por vir.

Atuar no não manifesto
O clássico Tao Te Ching nos diz que “o universo é um vaso sagrado que não deve ser manipulado; quem o manipula o destrói, quem o segura, o perde”.
A constante interferência do homem sobre a Natureza, considerando a si mesmo separado ou superior e querendo adequar o universo ao seu desejo, sem levar em conta o curso natural das coisas, tem cada vez mais demonstrado suas conseqüências patológicas. É preciso resgatar nossa integração com o todo, e perceber que não podemos fugir do fluxo do Tao, o Caminho. É preciso respeitá-lo.
Assim, através das técnicas preventivas e do respeito aos fluxos da natureza poderemos atingir uma existência mais saudável e plena de significado. “É melhor atuar no ainda não manifesto e controlar o ainda não bagunçado, porque árvore de tronco grosso nasce de uma raiz capilar, torre de nove andares se levanta com terra acumulada e jornada de mil léguas começa embaixo dos pés” (Tao Te Ching).